Prólogo
Quando se é uma criança, dificilmente você se preocupa em algo além de com o quê você vai brincar naquele momento. Algumas até mesmo quebram regras somente para se divertirem mais, não sabendo ou simplesmente não se importando com as consequências que viriam a ter mais tarde.
Eu não era diferente disso.
No dia anterior ao incidente eu estava tão animada como o de costume, ignorando o comportamento estranhamente ansioso que minha mãe apresentava nos últimos dias. Eu não me lembro exatamente o que eu achei que poderia tê-la feito ficar assim, ou se ao menos cheguei a me perguntar se haveria alguma razão para aquilo. Eu tinha apenas sete anos, e a única coisa que eu pensava sobre isso é que tal situação estava me atrapalhando a sair para brincar.
Passei boa parte daquela manhã olhando pela janela, observando a típica neve fina do começo de verão cair sobre meu vilarejo. Estava ansiosa para escapar de casa, mas por conta do meu longo histórico de "escapadas" durante castigos, minha mãe manteve a vigilância sobre mim, disposta a me fazer seguir sua ordem. Funcionou por um tempo, durante o qual eu desgostosamente me vi obrigada a ficar esperando uma oportunidade que eu não sabia se viria a ter. Eu não tinha feito nada errado para ficar presa em casa dessa vez, então eu achei muito injusto quando sem mais nem menos, minha mãe disse que eu não poderia mais sair por tempo indeterminado. Quando eu perguntava o motivo, ela apenas me dizia para obedecê-la e desviava do assunto.
Para mim, não havia nada incomum acontecendo naquele momento. Nós morávamos numa pequena tribo de híbridos Sielyx, localizada não muito distante do Alasca. A baixa temperatura do lugar não nos incomodava (éramos descendentes de monstros da neve, afinal), mas afastava a possibilidade de aparecer por ali qualquer outra espécie, fosse humana ou monstro, o que tornava as chances de conflitos quase que completamente nulas. A vida no vilarejo sempre foi extremamente pacífica e, por ser jovem demais, eu não conhecia uma realidade que fosse diferente daquela. E, por ser jovem demais, minha mãe quis me poupar de saber o quão ruim as coisas poderiam vir a ser. Então talvez, na minha ignorância e prepotência, eu tenha acabado com todas nossas possíveis chances de escapar do pesadelo que nos aguardava.
Claro, eu não tenho certeza de que caso eu não tivesse desobedecido minha mãe aquele dia, algo poderia ter sido evitado. Porém, essa dúvida é um fardo que eu carregarei pelo resto da minha vida, junto com a culpa das mortes que eu causei depois disso.
Pouco depois do almoço, eu finalmente tive uma brecha para escapar quando minha mãe voltou sua atenção para meus irmãos menores. Meu irmão mais velho, Hieros, estava comigo como todas as outras vezes em que escapei de casa durante um castigo, apesar de reclamar disso tanto quanto de costume. Eu costumava a alfinetá-lo e chamá-lo de covarde, mas Eros era pura e simplesmente mais sensato e responsável do que eu, algumas vezes até demais para seus dez anos.
Apesar de termos saído de casa como eu desejava, fiquei frustrada quando encontrei nossa vila praticamente deserta. Haviam poucos adultos que passavam por nós, apressados, e não vimos criança alguma durante todo o tempo em que estivemos fora. Em algum momento nós nos cansamos de procurar e nos sentamos sobre algumas grandes pedras que haviam por ali.
E então, Eros começou a falar sobre nossa magia. Um assunto que, naquele momento, era delicado demais para mim.
Nossa espécie tinha um dom especial, apenas nosso, de evocar e condensar nossa magia até ela se tornar um objeto físico extremamente resistente, com a aparência parecida com a de uma pedra de diamante. Praticamente todos na vila se davam muito bem construindo todo tipo de coisa com isso. Na verdade, eu arriscaria dizer que todos eles conseguiam fazer aquilo, de um jeito considerado ao menos "suficiente".
Bem, todos, menos eu.
Eu nunca tinha levado jeito com qualquer tipo de magia, mas era particularmente pior nessa. Minha mágica não era forte e nem consistente, e eu dificilmente conseguia fazer mais do que uma pedrinha deformada quando se tratava de condensação. No entanto, eu costumava me esforçar para tentar melhorar, e Eros me ajudava como podia.
Porém, isso foi antes da minha irmã mais nova, de apenas pouco mais de dois anos, conseguir fazer por acidente algo melhor do que consegui fazer em toda minha vida. Eu resolvi simplesmente desistir desde aquele dia mas, apesar de nossos pais não terem insistido, meu irmão não aceitou isso tão bem. Ele dizia que era idiota desistir de uma parte de mim mesma só porque outra pessoa era melhor naquilo, e que eu podia melhorar se continuasse tentando. Eu sabia que ele só estava tentando me ajudar, mas mesmo assim, a frustração em mim falava mais alto. Então, quando ele começou esse assunto novamente, nós brigamos.
Em algum momento durante nossa discussão, eu resolvi que não queria ouvir mais nada sobre aquilo e me levantei, correndo pra longe. Eu nem sequer olhei para onde ia, apenas queria sumir no meio da imensidão nevada, onde esses problemas não me alcançassem. Corri com tudo o que podia, tentando fugir de meu próprio sentimento de inutilidade.
Quando dei por mim, já estava quase no topo de uma colina um pouco afastada do vilarejo. E foi ali que o vi pela primeira vez.
Eu nunca havia visto um estrangeiro antes, então definitivamente foi uma surpresa encontrar alguém tão diferente ali. Sua pele era um tom um pouco mais escuro e rosado do que o tom pálido da minha espécie, seus cabelos eram dourados como ouro ao invés de prata e no topo de sua cabeça, onde ficavam nossas características orelhas de raposa, não havia nada. Suas pupilas redondas eram quase impossíveis de identificar por conta do castanho escuro de seus olhos, tão diferentes do nosso azul cristalino com uma pequena fenda negra destacada no meio. Além de sua aparência ainda haviam suas roupas, um casaco cinzento grosso, uma calça folgada e enormes botas negras... tudo parecendo ser quente e sufocante demais.
Mas, apesar dele ser algo totalmente inesperado para mim, o homem não parecia surpreso ao encontrar uma garotinha mestiça e albina, que trajava apenas um simples vestido de alças durante um dia nevado. Ele apenas me encarou com um olhar vazio, tão vago e distante que, em minha inocência, confundi com tristeza.
Ainda que exitante, eu me aproximei do forasteiro, encarando-o firmemente. Me aventurei a dar-lhe um pequeno sorriso tímido, sentindo-me mais a vontade quando o vi relaxar os ombros diante do gesto. Ele se agachou próximo a mim, para diminuir a grande diferença de altura, mas apesar de meu sobressalto pelo gesto um pouco brusco, não senti medo. Sorri mais uma vez, perguntando se precisava de alguma ajuda.
Ele pareceu me estudar durante alguns segundos antes de dar uma resposta, dizendo que eu poderia, sim, ajudá-lo com uma pequena pesquisa. Notando minha confusão diante de suas palavras, ele me contou uma pequena história na qual ele era um humano viajante que vinha de muito, muito longe, apenas para conhecer minha aldeia e, inflada pelo orgulho que estas palavras me trouxeram, concordei em ajudá-lo.
Depois de um pouco mais ele já tinha as respostas que procurava, mas continuamos conversando. Ele perguntou sobre coisas que eu gostava de fazer, sobre minha família e meus hobbies, e então me contou sobre os livros, música e teatros humanos. Me senti totalmente fascinada pelas coisas que o viajante me contava, mesmo que seus olhos não sorrissem como ele mesmo fazia enquanto me falava sobre elas.
Recordo-me de lembrar que provavelmente já estava na hora de voltar para casa, e a partir daí fiquei bastante nervosa com o horário, sabendo que minha mãe iria ficar muito brava pelo meu sumiço. Numa tentativa de conversar com ele um pouco mais sobre aquele mundo qual eu desconhecia, convidei-o para ir comigo, mas ele educadamente recusou. O homem disse algo como se também estivesse com pressa de chegar em algum lugar, e acabamos por nos despedir por ali.
Sem ter a menor ideia do que havia acabado de acontecer, segui alegremente o meu caminho de volta para casa. Foi só então que me lembrei que não havia perguntado o nome de quem eu conversara por tanto tempo, mas quando olhei para trás, aquela pessoa já não estava mais em lugar algum.
Cheguei em casa na ponta dos pés, tomando cuidado para não fazer barulho ao entrar pela porta dos fundos. No entanto, todo o trabalho que tive para ser discreta acabou sendo desperdiçado quando esbarrei em algumas tigelas que estavam sobre a mesa da cozinha, derrubando-as. Não demorou mais que alguns segundos até minha mãe aparecer ali, assustada e com os olhos vermelhos e inchados, pálida como se acabasse de ter visto um fantasma.
Nunca havia visto minha mãe chorar antes daquele dia, pelo menos, não na minha frente. Quando ela se ajoelhou no chão, me abraçando com força enquanto soluçava, eu apenas pude abraçá-la de volta, confusa e desorientada, sem ter a menor ideia do que teria acontecido. Por um bom tempo eu apenas permaneci em silêncio, afagando seu longo cabelo, tão agradável ao toque, tentando confortá-la.
Eros não demorou muito tempo para aparecer também. Ele tinha o mesmo olhar que minha mãe quando me viu, porém parecia mais em choque do que emotivo. Era estranho ver ambos dessa maneira, mas quanto tentei perguntá-los o motivo, nenhum dos dois me deu uma resposta. Eu já esperava isso de minha mãe, dado o modo como ela agia durante os últimos dias, mas quando Hieros, quem eu sempre contava e dividia tudo, desviou o olhar ao invés de me falar o que estava errado, eu não pude evitar de me sentir traída. Deixada de lado. Menor e mais inútil do que eu já me sentia.
Minha mãe não brigou comigo por conta do meu sumiço, e meu pai não estava em casa. Eu me sentia determinada a ignorar Eros, mas ele parecia estar fazendo o mesmo comigo, o que frustrou meus planos de fazê-lo implorar para desculpá-lo. Eu me sentia extremamente fora de contexto, que algo que eu não sabia o quê estava muito errado. Porém, eu não tinha a menor ideia de que aquilo pudesse estar além de mim, e além deles também. Eu me arrependo profundamente de tudo que fiz durante esse dia, principalmente deixá-los de lado da maneira que fiz, quando deveria ter feito justamente o contrário.
Já passava da meia-noite quando o pesadelo começou.
Eu estava agitada demais para conseguir dormir, pensando em todos os acontecimentos estranhos daquele dia. Mas apesar de completamente desperta, ainda me assustei quando Eros entrou bruscamente em meu quarto, me pegando pelo pulso e me falando para correr. Eu não entendi o que estava acontecendo até que houve um barulho tão alto e estridente que pensei que meus tímpanos fossem explodir.
Meu irmão aproveitou esse momento em que minha resistência falhou para me arrastar até a cozinha, nos escondendo rapidamente dentro de um dos armários em baixo da pia. Observando por uma pequena fresta, pude ver mais de três soldados humanos, portando as armas das quais vinham os terríveis barulhos e cores exageradamente vívidas.
Os momentos a partir desse são como um borrão confuso em minha mente. Aconteceu tudo tão rápido que mal pude compreender, mas ao mesmo tempo, algumas coisas pareceram acontecer tão lentamente que, caso feche os olhos, eu ainda consigo ver as imagens cravadas em minhas pálpebras.
Eu me lembro de Eros me abraçar firmemente, me impedindo de sair de nosso esconderijo quando vi minha mãe implorar pela vida de meus irmãos, com uma arma apontada para a própria cabeça. Eu me lembro de vê-la ser executada a sangue frio bem na minha frente. Eu me lembro do cheiro do sangue misturado ao seu perfume, e me lembro de meu irmão tapar minha boca, tentando me impedir de gritar enquanto me debatia contra ele, acreditando que ainda deveria ter alguma maneira de salvá-la. Eu me lembro quando o choro de meus irmãos mais novos cessou bruscamente e me lembro da sensação de torpor quando o inferno se tornou silencioso, e tudo que eu podia sentir era a vibração do peso dos passos daqueles soldados no chão do que costumava ser o meu lar. Eu me lembro de meu irmão tentar escapar dali comigo antes de sermos notados, e da dor intensa que senti em minha nuca enquanto fugíamos, antes de tudo se tornar escuro.
Me lembro que aquele dia foi o último no qual eu era "Calissa Shri".
Eu não era diferente disso.
No dia anterior ao incidente eu estava tão animada como o de costume, ignorando o comportamento estranhamente ansioso que minha mãe apresentava nos últimos dias. Eu não me lembro exatamente o que eu achei que poderia tê-la feito ficar assim, ou se ao menos cheguei a me perguntar se haveria alguma razão para aquilo. Eu tinha apenas sete anos, e a única coisa que eu pensava sobre isso é que tal situação estava me atrapalhando a sair para brincar.
Passei boa parte daquela manhã olhando pela janela, observando a típica neve fina do começo de verão cair sobre meu vilarejo. Estava ansiosa para escapar de casa, mas por conta do meu longo histórico de "escapadas" durante castigos, minha mãe manteve a vigilância sobre mim, disposta a me fazer seguir sua ordem. Funcionou por um tempo, durante o qual eu desgostosamente me vi obrigada a ficar esperando uma oportunidade que eu não sabia se viria a ter. Eu não tinha feito nada errado para ficar presa em casa dessa vez, então eu achei muito injusto quando sem mais nem menos, minha mãe disse que eu não poderia mais sair por tempo indeterminado. Quando eu perguntava o motivo, ela apenas me dizia para obedecê-la e desviava do assunto.
Para mim, não havia nada incomum acontecendo naquele momento. Nós morávamos numa pequena tribo de híbridos Sielyx, localizada não muito distante do Alasca. A baixa temperatura do lugar não nos incomodava (éramos descendentes de monstros da neve, afinal), mas afastava a possibilidade de aparecer por ali qualquer outra espécie, fosse humana ou monstro, o que tornava as chances de conflitos quase que completamente nulas. A vida no vilarejo sempre foi extremamente pacífica e, por ser jovem demais, eu não conhecia uma realidade que fosse diferente daquela. E, por ser jovem demais, minha mãe quis me poupar de saber o quão ruim as coisas poderiam vir a ser. Então talvez, na minha ignorância e prepotência, eu tenha acabado com todas nossas possíveis chances de escapar do pesadelo que nos aguardava.
Claro, eu não tenho certeza de que caso eu não tivesse desobedecido minha mãe aquele dia, algo poderia ter sido evitado. Porém, essa dúvida é um fardo que eu carregarei pelo resto da minha vida, junto com a culpa das mortes que eu causei depois disso.
Pouco depois do almoço, eu finalmente tive uma brecha para escapar quando minha mãe voltou sua atenção para meus irmãos menores. Meu irmão mais velho, Hieros, estava comigo como todas as outras vezes em que escapei de casa durante um castigo, apesar de reclamar disso tanto quanto de costume. Eu costumava a alfinetá-lo e chamá-lo de covarde, mas Eros era pura e simplesmente mais sensato e responsável do que eu, algumas vezes até demais para seus dez anos.
Apesar de termos saído de casa como eu desejava, fiquei frustrada quando encontrei nossa vila praticamente deserta. Haviam poucos adultos que passavam por nós, apressados, e não vimos criança alguma durante todo o tempo em que estivemos fora. Em algum momento nós nos cansamos de procurar e nos sentamos sobre algumas grandes pedras que haviam por ali.
E então, Eros começou a falar sobre nossa magia. Um assunto que, naquele momento, era delicado demais para mim.
Nossa espécie tinha um dom especial, apenas nosso, de evocar e condensar nossa magia até ela se tornar um objeto físico extremamente resistente, com a aparência parecida com a de uma pedra de diamante. Praticamente todos na vila se davam muito bem construindo todo tipo de coisa com isso. Na verdade, eu arriscaria dizer que todos eles conseguiam fazer aquilo, de um jeito considerado ao menos "suficiente".
Bem, todos, menos eu.
Eu nunca tinha levado jeito com qualquer tipo de magia, mas era particularmente pior nessa. Minha mágica não era forte e nem consistente, e eu dificilmente conseguia fazer mais do que uma pedrinha deformada quando se tratava de condensação. No entanto, eu costumava me esforçar para tentar melhorar, e Eros me ajudava como podia.
Porém, isso foi antes da minha irmã mais nova, de apenas pouco mais de dois anos, conseguir fazer por acidente algo melhor do que consegui fazer em toda minha vida. Eu resolvi simplesmente desistir desde aquele dia mas, apesar de nossos pais não terem insistido, meu irmão não aceitou isso tão bem. Ele dizia que era idiota desistir de uma parte de mim mesma só porque outra pessoa era melhor naquilo, e que eu podia melhorar se continuasse tentando. Eu sabia que ele só estava tentando me ajudar, mas mesmo assim, a frustração em mim falava mais alto. Então, quando ele começou esse assunto novamente, nós brigamos.
Em algum momento durante nossa discussão, eu resolvi que não queria ouvir mais nada sobre aquilo e me levantei, correndo pra longe. Eu nem sequer olhei para onde ia, apenas queria sumir no meio da imensidão nevada, onde esses problemas não me alcançassem. Corri com tudo o que podia, tentando fugir de meu próprio sentimento de inutilidade.
Quando dei por mim, já estava quase no topo de uma colina um pouco afastada do vilarejo. E foi ali que o vi pela primeira vez.
Eu nunca havia visto um estrangeiro antes, então definitivamente foi uma surpresa encontrar alguém tão diferente ali. Sua pele era um tom um pouco mais escuro e rosado do que o tom pálido da minha espécie, seus cabelos eram dourados como ouro ao invés de prata e no topo de sua cabeça, onde ficavam nossas características orelhas de raposa, não havia nada. Suas pupilas redondas eram quase impossíveis de identificar por conta do castanho escuro de seus olhos, tão diferentes do nosso azul cristalino com uma pequena fenda negra destacada no meio. Além de sua aparência ainda haviam suas roupas, um casaco cinzento grosso, uma calça folgada e enormes botas negras... tudo parecendo ser quente e sufocante demais.
Mas, apesar dele ser algo totalmente inesperado para mim, o homem não parecia surpreso ao encontrar uma garotinha mestiça e albina, que trajava apenas um simples vestido de alças durante um dia nevado. Ele apenas me encarou com um olhar vazio, tão vago e distante que, em minha inocência, confundi com tristeza.
Ainda que exitante, eu me aproximei do forasteiro, encarando-o firmemente. Me aventurei a dar-lhe um pequeno sorriso tímido, sentindo-me mais a vontade quando o vi relaxar os ombros diante do gesto. Ele se agachou próximo a mim, para diminuir a grande diferença de altura, mas apesar de meu sobressalto pelo gesto um pouco brusco, não senti medo. Sorri mais uma vez, perguntando se precisava de alguma ajuda.
Ele pareceu me estudar durante alguns segundos antes de dar uma resposta, dizendo que eu poderia, sim, ajudá-lo com uma pequena pesquisa. Notando minha confusão diante de suas palavras, ele me contou uma pequena história na qual ele era um humano viajante que vinha de muito, muito longe, apenas para conhecer minha aldeia e, inflada pelo orgulho que estas palavras me trouxeram, concordei em ajudá-lo.
Depois de um pouco mais ele já tinha as respostas que procurava, mas continuamos conversando. Ele perguntou sobre coisas que eu gostava de fazer, sobre minha família e meus hobbies, e então me contou sobre os livros, música e teatros humanos. Me senti totalmente fascinada pelas coisas que o viajante me contava, mesmo que seus olhos não sorrissem como ele mesmo fazia enquanto me falava sobre elas.
Recordo-me de lembrar que provavelmente já estava na hora de voltar para casa, e a partir daí fiquei bastante nervosa com o horário, sabendo que minha mãe iria ficar muito brava pelo meu sumiço. Numa tentativa de conversar com ele um pouco mais sobre aquele mundo qual eu desconhecia, convidei-o para ir comigo, mas ele educadamente recusou. O homem disse algo como se também estivesse com pressa de chegar em algum lugar, e acabamos por nos despedir por ali.
Sem ter a menor ideia do que havia acabado de acontecer, segui alegremente o meu caminho de volta para casa. Foi só então que me lembrei que não havia perguntado o nome de quem eu conversara por tanto tempo, mas quando olhei para trás, aquela pessoa já não estava mais em lugar algum.
Cheguei em casa na ponta dos pés, tomando cuidado para não fazer barulho ao entrar pela porta dos fundos. No entanto, todo o trabalho que tive para ser discreta acabou sendo desperdiçado quando esbarrei em algumas tigelas que estavam sobre a mesa da cozinha, derrubando-as. Não demorou mais que alguns segundos até minha mãe aparecer ali, assustada e com os olhos vermelhos e inchados, pálida como se acabasse de ter visto um fantasma.
Nunca havia visto minha mãe chorar antes daquele dia, pelo menos, não na minha frente. Quando ela se ajoelhou no chão, me abraçando com força enquanto soluçava, eu apenas pude abraçá-la de volta, confusa e desorientada, sem ter a menor ideia do que teria acontecido. Por um bom tempo eu apenas permaneci em silêncio, afagando seu longo cabelo, tão agradável ao toque, tentando confortá-la.
Eros não demorou muito tempo para aparecer também. Ele tinha o mesmo olhar que minha mãe quando me viu, porém parecia mais em choque do que emotivo. Era estranho ver ambos dessa maneira, mas quanto tentei perguntá-los o motivo, nenhum dos dois me deu uma resposta. Eu já esperava isso de minha mãe, dado o modo como ela agia durante os últimos dias, mas quando Hieros, quem eu sempre contava e dividia tudo, desviou o olhar ao invés de me falar o que estava errado, eu não pude evitar de me sentir traída. Deixada de lado. Menor e mais inútil do que eu já me sentia.
Minha mãe não brigou comigo por conta do meu sumiço, e meu pai não estava em casa. Eu me sentia determinada a ignorar Eros, mas ele parecia estar fazendo o mesmo comigo, o que frustrou meus planos de fazê-lo implorar para desculpá-lo. Eu me sentia extremamente fora de contexto, que algo que eu não sabia o quê estava muito errado. Porém, eu não tinha a menor ideia de que aquilo pudesse estar além de mim, e além deles também. Eu me arrependo profundamente de tudo que fiz durante esse dia, principalmente deixá-los de lado da maneira que fiz, quando deveria ter feito justamente o contrário.
Já passava da meia-noite quando o pesadelo começou.
Eu estava agitada demais para conseguir dormir, pensando em todos os acontecimentos estranhos daquele dia. Mas apesar de completamente desperta, ainda me assustei quando Eros entrou bruscamente em meu quarto, me pegando pelo pulso e me falando para correr. Eu não entendi o que estava acontecendo até que houve um barulho tão alto e estridente que pensei que meus tímpanos fossem explodir.
Meu irmão aproveitou esse momento em que minha resistência falhou para me arrastar até a cozinha, nos escondendo rapidamente dentro de um dos armários em baixo da pia. Observando por uma pequena fresta, pude ver mais de três soldados humanos, portando as armas das quais vinham os terríveis barulhos e cores exageradamente vívidas.
Os momentos a partir desse são como um borrão confuso em minha mente. Aconteceu tudo tão rápido que mal pude compreender, mas ao mesmo tempo, algumas coisas pareceram acontecer tão lentamente que, caso feche os olhos, eu ainda consigo ver as imagens cravadas em minhas pálpebras.
Eu me lembro de Eros me abraçar firmemente, me impedindo de sair de nosso esconderijo quando vi minha mãe implorar pela vida de meus irmãos, com uma arma apontada para a própria cabeça. Eu me lembro de vê-la ser executada a sangue frio bem na minha frente. Eu me lembro do cheiro do sangue misturado ao seu perfume, e me lembro de meu irmão tapar minha boca, tentando me impedir de gritar enquanto me debatia contra ele, acreditando que ainda deveria ter alguma maneira de salvá-la. Eu me lembro quando o choro de meus irmãos mais novos cessou bruscamente e me lembro da sensação de torpor quando o inferno se tornou silencioso, e tudo que eu podia sentir era a vibração do peso dos passos daqueles soldados no chão do que costumava ser o meu lar. Eu me lembro de meu irmão tentar escapar dali comigo antes de sermos notados, e da dor intensa que senti em minha nuca enquanto fugíamos, antes de tudo se tornar escuro.
Me lembro que aquele dia foi o último no qual eu era "Calissa Shri".
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