Capítulo 1 - Mentiras

Dia 1, ano 1
Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Genético


     Acordei zonza e desorientada, além de estar com uma dor terrível na nuca que me fez ver estrelas quando tentei me sentar sobre o estranho metal frio. Por sorte, Hieros estava ao meu lado e me segurou antes que eu caísse. Eu definitivamente não precisava de outro local machucado por conta de uma queda estúpida.

     - Lissa? - Ele perguntou em um tom hesitante que transbordava preocupação. Eu não consegui responder imediatamente, estava tentando raciocinar com a dor lancinante que sentia em minha cabeça, então não demorou muito para seu tom se tornar mais urgente. - Lissa? Consegue me ouvir? Lissa!

     - Cala a boca um pouco - Resmunguei, mal humorada. - Já está sendo difícil pensar sem você falando na minha orelha.

     Funcionou para que ele ficasse quieto, mas assim que consegui finalmente focar minha visão e olhá-lo, desejei ter engolido aquelas palavras. Meu irmão parecia acabado, tanto fisicamente quanto emocionalmente. O que tinha acontecido? Eu não conseguia me lembrar.

     - Eu... Foi mal. - Balbuciei, constrangida. Ele não esboçou nenhuma reação e aquela situação estranha estava começando a me apavorar. Instintivamente, tateei meu próprio corpo, verificando se estava inteira. Tirando pelas dores, eu parecia estar bem. - Eros, você está me assustando. O que aconteceu?

     Eu não achei que a expressão dele pudesse ficar pior do que a que ele estava antes, mas me enganei. Ele desviou o olhar perturbado diante a minha pergunta, trincando os dentes enquanto encarava o chão. Suas mãos fechadas em punhos tremiam um pouco. Meu irmão não parecia ele mesmo.

     Nesse momento, eu olhei a nossa volta.

     Estávamos em uma pequena sala metálica com apenas duas camas suspensas. Pude ver que ele havia tentado destruir uma das paredes, a que tinha uma estranha linha no meio, mas sem sucesso. Sua magia tinha apenas riscado um pouco do metal polido.
     Aparentemente, estávamos presos ali, mas eu não conseguia me lembrar o porquê. O lugar também não me parecia familiar, mas ainda estávamos na nossa vila, certo? Quer dizer, eu poderia não me lembrar como desmaiei, mas se nós tivéssemos saído...
     E então, de súbito, eu me lembrei. As memórias do dia anterior me atingiram como um soco, me fazendo querer vomitar. A cena de minha mãe sendo morta bem à minha frente se repetia diversas vezes em meu cérebro, o cheiro do sangue, o terror congelante. Estavam mortos. Meus pais, meus irmãos, minha família, minha aldeia. Mortos. Estavam mortos.

     Estavam todos mortos.

     Eu nem ao menos reparei que estava gritando até Hieros agarrar meus pulsos, tentando afastar minhas mãos da cabeça enquanto chamava pelo meu nome. Eu estava em choque. Eu não conseguia nem sequer escutar minha própria voz.
     Eu tremia descontroladamente, minha visão agora borrada por lágrimas que eu não sabia desde quando estavam ali. Meu irmão não estava em um estado muito melhor do que eu, mas ainda assim tentava me chamar de volta do pânico em que minhas lembranças me deixaram.
     Meus gritos cessaram aos poucos e ele me abraçou. Eu chorava e choramingava, minha garganta ardendo, minha dor de cabeça pior do que antes, me sentindo desgastada, faminta e exausta. Hieros afagou meu cabelo com suas mãos trêmulas durante todo esse tempo, chorando silenciosamente junto comigo.

     Isso tudo simplesmente não podia ser verdade. Tinha que ser mentira. Eu estava sonhando, não estava? Eu tinha que estar. Meus pais não podiam estar mortos, eles eram os melhores guerreiros! Minha vila não poderia ter sido exterminada tão facilmente. Não podia ser... Era mentira. Era só um sonho ruim. Era só um pesadelo. Era só isso. Só um pesadelo. Mesmo que tenhamos sidos pegos, os outros estavam bem. Só tivemos azar, não foi? Minha cabeça só está inventando tudo isso pra preencher os espaços em branco de uma perda de memória, não é? Alucinações, assim como as histórias de terror que contávamos junto com as outras crianças. Era isso.

     Só podia ser isso.

     Com esse pensamento, eu me afastei de Hieros, sentindo um sorriso antinatural se formar em meus lábios.

     Claro que não estavam mortos. Como eu era boba. Foi só um pesadelo.

     - Está tudo bem... Vamos sair dessa, você vai ver. - Falei em um tom baixo, tentando não forçar mais minha garganta. Meu irmão apenas me deu um olhar confuso e amedrontado. - Talvez seja um pouco mais difícil do que escapar da mamãe, mas nós vamos conseguir. Vamos voltar pra casa.

     Hieros arregalou os olhos, congelando por algum tempo antes de começar a balbuciar algumas coisas confusas. Eu segurei suas mãos, apertando-as um pouco, enquanto olhava fixamente para ele.

     - Eles estão bem, não estão? - Eu perguntei em uma voz que soara estranha até mesmo para mim.

     Ele tremeu um pouco antes de assentir, e não me olhou novamente enquanto concordava com minha afirmação. Eu dei um pequeno riso, chamando-o de bobão covarde, assim como eu sempre fazia quando ele começava a reclamar por estarmos desobedecendo as ordens de algum adulto. Assim como eu sempre fazia, prometi a ele que daria tudo certo. Que daríamos um jeito de sair dali e voltar para casa, que estariam todos nos esperando. Era sempre assim, não era?
     Eu o abracei novamente, mas não senti como se fosse para confortá-lo, ou mesmo me confortar. Ele também não correspondeu, mas eu não me importei. Continuei falando de como seria quando voltássemos para casa, e ele se manteve imóvel e em silêncio.
     Continuei alimentando nossa mentira até conseguir borrar as imagens medonhas de minhas lembranças, acreditando que eram apenas invenções da minha cabeça.
     Não sei quando foi, mas em algum momento eu apenas dormi novamente, mergulhando no vazio escuro de um sono sem sonhos, mas com a sensação sufocante de morte iminente.




Dia 3, Ano 1
Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Genético - Nossa cela

     Aquele lugar estava definitivamente mexendo com a minha cabeça. Não haviam janelas para que pudéssemos saber que momento do dia era e, a cada momento que se passava, aquela sala parecia ficar menor. Também não havia nada para fazer além de brincar com alguns botões estranhos que havia na parede perto da parede, aquela com o desenho estranho que o meu irmão havia dito ser uma porta. Tudo bem que aquilo não parecia nem de longe porta pra mim, mas acredito nele.
     Haviam vários botões coloridos, mas apenas dois funcionavam, que eram respectivamente o que fazia uma privada sair do chão, e outro que era uma pia. Por sorte, eu tinha descoberto isso bem a tempo no nosso primeiro dia aqui, e depois disso eu também passei a brincar apenas os apertando por nada. Era a única cosa que se tinha pra fazer ali, afinal.
    Mas, devo dizer que por mais interessante que aquilo fosse, ainda assim era esquisito ter que usar o banheiro na frente do meu irmão e vice-versa. Eu preferia que tivesse uma cabine ou algo assim. Uma cabine saindo do chão seria legal. Por que não podia ser uma cabine?
     Fora isso, nos entregavam comida vez ou outra, por uma fissura na parede que as vezes se abria. Infelizmente, não havia nenhum botão pra gerar isso, então nós tínhamos que esperar. Apesar de sempre vir bem pouca, meu irmão nunca estava com fome, então eu acabava comendo a parte dele também.
     Falando nele, Hieros estava extremamente apático desde que chegamos aqui. Ele não disse quase nada desde nossa pequena discussão, e também não quis brincar comigo de nada que eu propusesse. O máximo que tirou uma reação dele foi quando a privada mágica surgiu. Foi meio engraçado a expressão de susto que ele fez.
    Bem, é certo que não estávamos exatamente na melhor das situações, mas ainda assim dava pra resolver, não é? Quer dizer, eu sempre fui muito boa em escapar da vista dos outros, com certeza consigo nos tirar daqui.
     Mas pra isso, antes preciso que abram essa porta ridícula.

      Espera. Eles planejam abrir isso, não é?

      Parei de brincar com o botão da privada por um instante. Isso era ruim. Desde que meu irmão falou que a parede trincada na realidade era uma porta, estive esperando alguma hora alguém abri-la para alguma coisa, qualquer que fosse, para escaparmos. Mas e se não tiverem a intenção de abrir?
     Uh oh. Eu tenho que pensar em algum jeito. Mas eu nem sequer sei o que eles querem com a gente, como posso bolar algo pra sair daqui?
     Ruim. Muito ruim.
     Não somos tão pequenos assim pra nos enfiarmos no espaço onde vem a bandeja de comida e não temos como quebrar essas paredes. Não consigo pensar em nada para fazer além de esperar.
     Me sinto enjoada, a sensação de claustrofobia aumentando quanto mais penso sobre o assunto.
     Não podíamos estar presos ali pelo resto das nossas vidas. Simplesmente não podíamos. E, além disso, tinha que ter um motivo pra nos deixarem aqui, certo? Eles tem de vir nos pegar alguma hora, então nós atacamos e escapamos.
     Certo, estava tudo bem. Eles iriam vir aqui alguma hora.
     Eles têm, não é?
     Começo a roer as unhas por conta do nervoso. Mamãe sempre falava pra eu parar com essa mania, porque eu podia acabar cortando a boca, mas eu não ligava. Mamãe também não estava aqui agora pra me dizer o que fazer, de todo jeito.
     Procurando me acalmar, sento-me no chão, olhando para a joia de minhas tornozeleiras, bastante agradecida por não terem tirado-a de mim quando nos vestiram com esse conjunto cinzento horrível quando estávamos desacordados. Eu me sentia tranquila com a familiaridade que elas me traziam nesse ambiente estranho. Uma lembrança de casa.
     Observei Hieros deitado em sua cama de metal, virado para parede. Ele ainda não mostrava sinais que de qualquer melhora. O que eu poderia fazer...?
     Olho para as minhas tornozeleiras novamente e, no impulso, desembolei uma delas, tirando-a de mim. Na realidade, aquilo era para ser um colar que eu havia adaptado para que pudesse colocar nos tornozelos, já que me era desconfortável correr com algo pendurado no pescoço.
     Levanto-me ainda ajeitando a corrente. Era estranho andar sem o peso familiar em um dos pés, mas era por uma boa causa. Ainda que não funcionasse.

     - Eros...? - Tento chamá-lo, mas ele não me dá nenhuma resposta, apesar de eu saber que estava acordado. - Eros, olha pra mim! - Nada ainda.

     Não demoro a ficar impaciente com ele e forço a corrente a passar em sua cabeça deitada, até que a mesma ficasse pendurada em seu pescoço. Só então ele tateou o colar e se sentou, me encarando, enquanto segurava o pingente de pedra azul.

     - Pra você se lembrar que não está sozinho, cabeça-dura. - Tentei sorrir amigavelmente para ele, mas não consegui evitar de me sentir triste também. - Vamos, eu sei que nossa situação não é boa, mas precisamos pensar juntos se quisermos sair daqui.

     - Você me chamando de cabeça-dura. O mundo está realmente acabando. - Ele dá uma leve risada e suspira em seguida, enquanto me sento ao seu lado. - Era pra eu estar tomando conta de você, não o contrário. - Ele diz cabisbaixo, e então dou um peteleco em seu nariz. - Ai! Ei, por que fez isso?

     - Eu é que tinha que estar te perguntando por quê é que você anda tão esquisito comigo.

     - Eu não estou esquisito. Você é que é esquisita.

     - Eu não sou esquisita, esquisitão! - Eu finalizei, fazendo uma careta para ele, fazendo nós dois rirmos baixinho depois disso.  Meu irmão finalmente estava mais parecido com ele mesmo. Com olhos vermelhos, esfarrapado e um tanto quanto depressivo, mas era ele de novo. Ainda que eu não quisesse nenhum de nós naquela situação, eu me sentia um pouco melhor sabendo que ele estava comigo.

     - Aquele dia, antes de você acordar... - Ele começou, depois de algum tempo de silêncio. - Apareceu um homem aqui. Ele era... assustador. Eu tentei acertá-lo, mas ele desviou... falou algumas coisas também, mas eu sinceramente não consegui prestar atenção. - Dito isso, ele se encolheu. - Desculpa. Acho que estraguei tudo.

     Em outro momento, eu teria gritado com ele. Ainda que eu estivesse com vontade, eu sabia que se eu fizesse isso, ia só arruinar o que eu tinha acabado de concertar. Ele provavelmente tinha perdido nossa melhor oportunidade de escapar, mas eu também nem sequer estava acordada.

     - Tudo bem, nós vamos dar um jeito. - Disse simplesmente, dando de ombros como se não me importasse. - Nós sempre damos, no final das contas, certo?

     Ele fez uma careta, e não precisou falar que não era bem assim para que eu entendesse a mensagem. Ainda assim, sorrimos um pro outro. Os dias de silêncio desconfortável entre nós haviam acabado.



Dia 5, ano 1
Cela do Bloco D1 - N°113

     Ao mesmo tempo que esperávamos ansiosamente que aquela porta abrisse, nenhum de nós dois estava preparado para quando ela finalmente abriu ruidosamente enquanto dormíamos.
     Um homem de cabelos e olhos negros estava parado em frente a nossa porta. Ele não parecia assustador como Hieros dissera que era, e nem tão velho quanto eu esperava que fosse. Parecia ter por volta de seus dezesseis anos.
     Algo sobre ele me deixava com uma incômoda sensação de "fora do lugar", mas não tínhamos tempo para pensar sobre isso. Me apressei a atacá-lo diretamente com minhas garras, enquanto meu irmão se preparava para selar os pés do estranho ao chão com seus cristais.
     Pelo menos, era esse o plano, antes dele me segurar e desviar dos cristais de Hieros. Ele claramente era bem mais esperto do que nós e, por conta disso, a situação agora não estava nada favorável.

     - Cheios de energia, posso ver. - O estranho disse, dando um pequeno riso enquanto me prendia de costas pra ele. Ele não me machucava, mas também não me dava espaço algum para sair. - Isso é bom, continuem assim. Mas, por favor, evitem atacar funcionários daqui, sim? Vocês podem acabar enrascados.

     Hieros estava congelado onde bem estava, com medo de fazer qualquer movimento e acabar me ferindo. Ainda assim, eu tentava me soltar, mesmo que sem sucesso. Eu também podia sentir o estranho atrás de mim me encarando com curiosidade, o que me deixou furiosa.

     - Garota, por que não tenta usar sua magia em mim? Seu irmão poderia acabar te acertando, mas você conseguiria me atingir, não? - Ele perguntou, e eu trinquei os dentes, com raiva. Como se não bastasse ter sido sequestrada, presa por dias em uma salinha estúpida e minha tentativa de escapar tivesse acabado de ser totalmente anulada, o cara que eu deveria ter nocauteado agora estava querendo me dar uma lição de como lutar, porque aparentemente eu era uma anta. Me desculpe se não sei usar essa droga de magia.

     - Não te interessa. - Resmunguei, apática. - Me solte.

     - Pra te dar a chance de acertar essas belas unhas em mim? Não, obrigado. - Ele sorriu. - Só o mais velho consegue usar magia então, por hora. Vamos ter que dar um jeito nisso.

     - O que vocês querem com a gente? - Hieros finalmente falou, fazendo a pergunta do século. A expressão divertida do estranho se desmanchou aos poucos, e senti que o mesmo hesitou por alguns por alguns segundos, mas se recompôs tão rápido que me fez concluir que era apenas uma ilusão de minha mente.

     - Que lutem. - Ele disse, e eu prendi a respiração. - Não contra si, ao menos enquanto estiverem andando na linha. Por isso o aviso de antes. Nem todo mundo é tão complacente quanto eu, se fizerem um funcionário perder a paciência, pode ser o fim da linha de vocês. - Avisou, e Hieros e eu nos entreolhamos automaticamente.

     Ele não podia estar falando de lutar até morrer, certo?
     Antes que começássemos a entrar em pânico, o estranho retornou a falar.

    - Mas, voltando a responder a pergunta, queremos que se transformem em soldados. Mas isso é só daqui a alguns anos, precisam passar por muita coisa antes disso. - Completou antes de me soltar, e esticou sua mão para tocar minha cabeça, mas recuei. Ele pareceu surpreso com sua própria atitude por um momento, mas logo voltou a sorrir como se nada houvesse acontecido e, apesar de eu sentir como se meu estômago estivesse cheio de gelo depois daquelas palavras, eu não conseguia mais me fazer atacá-lo ou sequer apenas correr. Sentia meus pés grudados no chão liso daquele lugar.

     O pior é que eu não me sentia com raiva dele. Eu não sentia mais vontade de atacá-lo. Passar anos ali era impossível, lutar contra meu irmão mais impossível ainda. Nós tínhamos que voltar pra casa, mas mesmo assim eu não queria me mover. Não sabia se por medo ou respeito, mas eu não conseguia me fazer mover um músculo que fosse.
     Ainda que estivesse ali para nos apresentar à nosso pior pesadelo, o estranho tinha olhos e palavras gentis demais, eu tinha o ímpeto de obedecê-lo. Obedecer a alguém que estava nos levando ao mais horrível dos destinos.
     Eu certamente estava ficando louca. Por que não conseguia atacá-lo como havia feito antes? Ele já não estava me segurando mais.
     Trinquei os dentes com raiva de mim mesma, enquanto ele nos guiava calmamente para fora de nossa cela, eu e meu irmão seguindo-o ambos como cordeirinhos obedientes pelos corredores monocromáticos de nossa prisão.

******

     Descobrimos depois de não muito tempo que seu nome era Evan. Não que estivéssemos interessados em saber, mas ele quis se apresentar. Ele nos mostrou o que disse ser o básico da nossa unidade, a parte que poderíamos circular naquele momento. É certo que estar ali dentro era extremamente ruim, mas saber que não precisaríamos estar em nossa cela o tempo todo me deixou um pouco mais tranquila, principalmente em relação ao nosso plano de escapar.
     O pátio era um grande local à céu aberto, mas cercado com muros insanamente altos, cheios de câmeras e armadilhas. Perto das mesas também havia uma enorme tela, onde apareciam alguns números que eu ainda não entendia o significado. Apesar de que as formas simples e cores claras devessem deixar o ambiente mais leve, isso apenas servia para exibir mais destacadamente as manchas avermelhadas que pareciam estar onde quer que eu olhasse.
     Mesmo diante dessas coisas e dos avisos que Evan nos dava, a verdade é que eu não conseguia parar de olhar para a multidão de híbridos que havia ali. Ainda que naquele ambiente opressor, com suas expressões pouco amigáveis e assustadas, eles me fascinavam com suas tão diferentes cores e formas. Eu nunca havia visto outras espécies antes e, mesmo naquela situação, não consegui deixar de me sentir intrigada por eles.
     Também notei que suas idades pareciam variar mais de dez à quinze, o que ao mesmo tempo que me deixou aliviada, me fez sentir extremamente deprimida, assustada e...culpada. É claro que eu iria escapar dali com Hieros sem pensar duas vezes caso tivesse chance, mas... e essas outras crianças? O que fariam? Lutariam? Morreriam? Não parecia justo, mas tentei afastar esse pensamento. Eu tinha que pensar em nós dois, não no resto.
     Além do pátio e dos corredores das celas, tínhamos uma grande biblioteca, mas os livros não eram nada parecidos com os que mamãe lia para nós. Eram grandes, pesados e muitas vezes cheios de poeira, com uma linguagem difícil demais pra eu conseguir entender muita coisa, mas eu sabia que não eram histórias. Evan disse que era um lugar para podermos aprender novas técnicas de magia que poderiam ser obtidas com conhecimento, e se dispôs a nos ajudar caso quiséssemos aprender outra hora.
     Ele também nos explicou sobre o sistema de batalhas, apesar de ter parecido embolado enquanto tentava esclarecer isso para nós. Pelo que entendi, sorteavam alguém para lutar conosco uma vez por semana e, quanto melhor fosse nosso desempenho e comportamento, poderíamos ganhar algumas coisas como quartos melhores, refeições maiores ou acesso à áreas restritas, e era por isso era importante que melhorássemos nossas técnicas.
     Também explicou que não deveríamos nem por um segundo pensar em entrar em qualquer um dos lugares que ele não sinalizou que poderíamos. Ele foi bem claro com isso, falando mais seriamente do que em qualquer outro momento e, ainda que eu tivesse o costume de desobedecer esse tipo de ordem, não me senti nada inclinada a contradizê-lo. Mesmo que eu estivesse me sentindo sufocada.
     Voltamos à nossa cela um pouco depois desse pequeno tour, para o que seria nosso último jantar a comer sozinhos, caso assim desejássemos, de acordo com Evan. Quando perguntei sobre isso, ele disse que poderíamos comer no pátio, mas que ele não recomendava que andássemos sozinhos, e disse que caso quiséssemos acompanhá-lo durante as refeições, não seria um problema. E, quando eu o perguntei o que significava isso, eu entendi porquê ele parecia tão fora de contexto.
     Ele também era um híbrido que tinha sido levado para aquele lugar. Apenas tinha crescido o suficiente para trabalhar junto com nossos carcereiros, introduzindo o lugar aos novatos que pegavam.
     A informação me fez ficar enjoada. Me imaginar apresentando esse lugar aos sorrisos para outro híbrido arrancado de sua família me fez sentir enjoada. Eu queria socá-lo e perguntar como poderia estar fazendo isso, ferindo seus próprios semelhantes. Ajudando a arruinar a vida de tanta gente.
     Mas, antes que eu pudesse processar essa informação, Evan já havia ido embora, me deixando sozinha com meu irmão em nossa cela novamente. Nem eu nem Hieros trocamos uma única palavra naquela noite, mas o silêncio não era do tipo estranho.
     Era do tipo perplexo, de quem havia acabado de presenciar uma traição.

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